O medo

O medo… do medo

Quem sente ataques de pânico tende a intensificar o medo de sofrer uma nova crise. Em última instância, isso pode tornar as pessoas reclusas na sua própria casa, prejudicando o convívio social e a vida profissional. Mas é possível superar "o medo do medo" com fármacos e outras terapias.

 

Sem que nada o preveja, o coração parece saltar do peito. Um batimento forte e rápido, semelhante ao galope de um cavalo. As mãos suam, o formigueiro toma conta do corpo e os tremores perturbam o raciocínio. Segundos em que palpitações e dores convergem num desconforto perturbador. Muitas pessoas que sofrem de ataques de pânico pensam que vão morrer - são normalmente 15 a 20 minutos verdadeiramente assustadores.

Súbitos, sem motivo aparente e frequentemente provocados por situações triviais, como uma ida ao cinema ou uma viagem de comboio, estes episódios de profunda ansiedade e medo são acompanhados por sintomas físicos habitualmente associados a uma resposta do organismo a uma situação de extremo perigo. Se alguém nos apontar uma arma de fogo, o corpo prepara-se para fugir, acelerando a frequência cardíaca, com um afluxo de sangue aos músculos, transpiração e rubor. Surge o medo e o estado de alerta agudiza-se. Só que num ataque de pânico, essas alterações acontecem sem que exista perigo real. No auge de cada crise, existe uma sensação de catástrofe iminente.

Este quadro imprevisível alcança a sua intensidade máxima em cerca de 10 minutos e normalmente dissipa-se em poucos minutos, não sendo por isso possível ao médico observar a sintomatologia mas apenas a ansiedade que ela provoca, envolvendo quem sofre a crise num clima de medo constante, receando o aparecimento de um novo episódio a qualquer momento.

Um ciclo vicioso com efeitos negativos na qualidade de vida, podendo mesmo abrir caminho à agorafobia - o receio de lugares públicos, de onde possa ser difícil sair rapidamente. Pode ser um estádio de futebol, um cinema, um aeroporto, um supermercado, um autocarro, comboio ou avião, uma ponte ou um túnel.

Nas situações mais graves, a pessoa acaba por se enclausurar na residência, o que, tendo em conta que a doença afecta sobretudo adultos jovens, pode revelar-se desastroso para o desenvolvimento profissional e social.

São habitualmente pessoas na plenitude das suas capacidades, do seu potencial de trabalho e que, devido aos ataques de pânico e à fobia a eles associada, podem, por exemplo, recusar uma promoção se ela implicar viajar.

Comum a estes doentes é, aliás, algum absentismo laboral, recusa sucessiva de convites profissionais e sociais (o que gera afastamento e perda dos contactos sociais), uma progressiva deterioração económica, o que vai acentuando o isolamento, tão típico de quem sofre de agorafobia. Afinal, o pensamento recorrente é "vou ter a crise novamente?"

 

Sem prevenção, mas com tratamento

As estatísticas mostram uma maior incidência em mulheres, mas a causa permanece uma incógnita, ainda que se possam identificar alguns factores. Alguns estudos identificaram uma base genética - a probabilidade de surgirem ataques de pânico é quatro a oito vezes superior em pessoas com antecedentes familiares.

Outros factores, como um divórcio, o desemprego ou uma morte na família, pode desencadear esta perturbação. Só que as palpitações, tonturas e náuseas, dores no peito, tremores e formigueiro nos braços e nas pernas, frio ou calor excessivo são sintomas comuns a diversas doenças, além do que podem ser desencadeados pelo uso ou abuso de determinadas substâncias, como álcool, bem como por alguns medicamentos.

Por tudo isto, é fundamental descrever ao médico, não apenas os sintomas físicos mas também outros aspectos que os acompanham - os pensamentos, sentimentos e comportamentos durante cada ataque e entre ataques. Afinal, é este "mix" de sintomas físicos e cognitivos que permite diagnosticar a perturbação de pânico.

Há medicamentos que podem ser receitados para prevenir, controlar e mesmo tratar os ataques de pânico, mas é também possível recorrer a terapia cognitivas e comportamentais, que têm por objectivo ensinar o doente a lidar com os sintomas, para que seja capaz de se expor às situações fóbicas, sem entrar em pânico.

Para muitos doentes, a abordagem mais eficaz é a que conjuga estas duas vias - os medicamentos com a psicoterapia. E chegará o dia em que o coração já não dispara, em que as mãos deixam de suar; em que o formigueiro, os tremores e palpitações desaparecem e em que o medo se desvanece.

 

Sintomas de pânico

Medo. Muito medo. É uma característica dos ataques de pânico que podem desencadear um ciclo vicioso: o receio persistente de ter novo ataque (ansiedade antecipatória), uma preocupação extrema acerca das implicações do ataque ou das suas consequências (perder o controlo, ter um ataque cardíaco, morrer) e uma significativa alteração do comportamento.

 

• Palpitações e/ou aceleração do ritmo cardíaco

 

• Dificuldade em respirar ou respiração rápida e superficial

 

• Sudação

 

• Náuseas

 

• Dores no peito

 

• Desconforto abdominal
• Tonturas

 

• Calafrios ou ondas de calor

 

• Formigueiros

 

• Tremores

 

• Medo de enlouquecer ou morrer


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