Stress oxidativo

Stress oxidativo


O aumento da poluição e, sobretudo, as alterações do estilo de vida têm vindo a contribuir para o aumento de doenças provocadas pela ação dos radicais livres

stress oxid

O termo "antioxidante" e a concomitante publicidade e procura de alimentos, suplementos e cosméticos com propriedades ‘antioxidantes’ tornaram-se frequentes no nosso quotidiano. Os antioxidantes parecem estar em alguns cosméticos, em alguns alimentos e bebidas, apelando à vantagem de melhorar a saúde e o bem-estar em geral. Mas, afinal, o que são e de onde proveem tais radicais livres?


Instabilidade química

O corpo humano é constituído por diferentes tipos de tecidos, compostos por distintas células que, por sua vez, são constituídas por diversos tipos de moléculas, compostas por átomos. Os átomos são as partículas elementares constituintes das moléculas e da matéria. São compostos por um núcleo constituído por protões (carga positiva) e neutrões (sem carga). À volta do núcleo existe dispersa uma ‘nuvem atómica’ composta por eletrões (carga negativa).

Para que um átomo conserve a sua estabilidade, necessita de ter na sua camada externa um número par de eletrões. Deste modo, os radicais livres surgem pela perda de um eletrão ou pela sua adição, ou ainda pela rutura de uma ligação química numa molécula na qual cada átomo participante da ligação retém um eletrão do par que constituía a união, formando-se um radical.

Um radical livre é qualquer átomo, molécula ou ião que possui um eletrão livre (não emparelhado) na sua órbita mais externa. Pelo que o radical livre tem uma instabilidade química muito grande. E, mesmo tendo uma vida de frações de segundos, a necessidade de estabilizar dos radicais livres torna-os altamente reativos, sendo capazes de reagir com qualquer composto que esteja próximo, seja ele uma molécula, uma célula ou tecido do nosso organismo.

A sua forte atividade na procura do eletrão perdido pode causar danos aos tecidos através da reação com os ácidos gordos polinsaturados das membranas celulares, nucleotídeos do nosso ADN e com as ligações sulfidrílicas (SH) das proteínas.

O propósito da “vida” dos radicais livres é reagirem com os compostos à sua volta e “roubar-lhes” o eletrão necessário para a sua estabilização. Porém, desse modo, geram reações em cadeia que são fonte de alteração e dano celular, derivado da oxidação dos compostos com que os radicais livres reagem.

Enzimas, vitaminas e minerais são recursos do nosso organismo para combater esse efeito oxidante dos radicais livres.

Existem radicais livres de iões metálicos. Mas em sistemas biológicos o oxigénio é um aceitador eletrónico, sendo que os radicais livres mais comuns são as espécies reativas de oxigénio – o radical anião superóxido (O2–), o radical hidróxilo (OH–), o radical óxido nítrico (NO–) e o di-radical de oxigénio molecular.

Sendo ainda de interesse biológico espécies não radicais mas oxidantes como: o peróxido de hidrogénio (H2O2), o ácido hipoclórico (HOCl), o anião peroxinitrito (ONOO–) e o oxigénio singlet (1O2).

Destaca-se que, para além das espécies radicais, também outras são reativas e têm papéis centrais nos processos de oxidação; pelo que, na literatura, muitas vezes encontra-se a designação geral e mais abrangente de “Espécies Reativas de Oxigénio”, ERO ou ROS, do inglês: Reative Oxygen Species.

Radicais livres um mal a abater?

Os radicais livres e as demais espécies reativas podem ter uma origem exogénica (exterior) direta como é o caso do fumo do tabaco e dos poluentes do ar que nos rodeia. Ou ainda uma origem exogénica indireta: através do metabolismo de certos aditivos químicos, solventes, drogas, pesticidas; por exposição a radiações ionizantes (raios gama e raios X), radiações ultravioleta e ultrassons.

Mas a principal origem de radicais livres é endogénica (interior). Eles resultam simplesmente das reações metabólicas normais do nosso organismo, sendo o oxigénio que respiramos o principal gerador. A vida surgiu na Terra numa atmosfera redutora e sem oxigénio. Só mais tarde o oxigénio começou a aparecer na atmosfera, em quantidades cada vez maiores.

Tal ocorrência representou uma forte pressão evolutiva, permitindo o desenvolvimento de organismos mais complexos que utilizaram a molécula de oxigénio (O2) para a produção de energia de uma forma muito mais eficiente. No nosso organismo, as espécies reativas de oxigénio são produzidas pelas células quando há um aumento do consumo de oxigénio.

Ao aceitar um eletrão, o oxigénio torna-se um anião radical denominado superóxido (O2–), o qual está envolvido em processos fisiológicos positivos e negativos. Esta e outras espécies reativas de oxigénio são necessárias no processo de respiração celular, que ocorre nas mitocôndrias das células do nosso organismo, a fim de gerar o ATP – a molécula energética necessária para a força muscular e para a manutenção da atividade no nosso organismo.

Por outro lado, os radicais livres produzidos pelos macrófagos, neutrófilos, monócitos e eosinófilos (glóbulos brancos usados pelas nossas defesas orgânicas) são usados contra bactérias, fungos e outros organismos invasores do nosso organismo. Pelo que, sem radicais livres também não teríamos uma defesa adequada contra as infeções.

O citocromo P-450 situado no retículo endoplasmático gera radicais livres, mas também é responsável pela desintoxicação de produtos como o benzeno, álcool, alguns inseticidas e antifúngicos. As espécies reativas de oxigénio são, portanto, algo que faz parte do funcionamento do nosso organismo. E o nosso próprio organismo possui sistemas de eliminação de radicais livres, resultado evolutivo advindo da necessidade de assimilação de oxigénio pelos organismos eucariontes.

Num ciclo em que se geram e são eliminados, como muitas outras substâncias, os radicais livres são indispensáveis em quantidades controladas. O efeito prejudicial ocorre quando os radicais livres estão em quantidade excessiva no organismo, ultrapassando a nossa capacidade de neutralizá-los com os sistemas enzimáticos que possuímos e com o aporte nutricional da nossa dieta diária. Aí estamos presente uma situação denominada por stress oxidativo.

Quer seja pelo aumento excessivo na produção de espécies reativas ou pela diminuição de agentes antioxidantes, devido a má nutrição ou por falha de alguma(s) das enzimas envolvidas na resposta antioxidante do organismo. Tal desequilíbrio e a consequente tentativa do organismo restaurar o equilíbrio (balanço redox), pode ter como consequências alterações da relação estrutura/função de diferentes órgãos, sistema ou grupo celular específico.

Os danos celulares podem resultar de um estímulo químico ou físico, por excesso ou carência, que, temporária ou permanentemente, provoca alterações na homeostasia da célula: é reversível quando a célula entra num estado de latência, mais ou menos prolongado; é irreversível quando há morte celular, a qual pode ocorrer por via de apoptose ou necrose.

A necrose resulta de uma disfunção celular aguda em resposta a condições de stress ou após exposição celular a agentes tóxicos. A apoptose é um processo ativo, o qual permite a remoção de células danificadas ou indesejadas antes que ocorra a libertação dos conteúdos celulares, minimizando a ocorrência de resposta inflamatória e preservando as demais células.

Em condições de stresse oxidativo, as espécies reativas de oxigénio causam diversas lesões às principais biomoléculas. A presença de tais lesões tem sido registada em diversas doenças com elevada morbilidade e mortalidade. O stresse oxidativo é a denominação para a condição fisiológica em que se regista um excesso de radicais livres, o qual acarreta vários efeitos prejudiciais à saúde.

A poluição a que estamos sujeitos, a exposição muitas vezes excessiva à radiação solar, o stresse quotidiano, os comportamentos prejudiciais como o tabagismo, o excesso de ingestão de gorduras polinsaturadas, uma dieta hipercalórica ou hiperproteica, a falta de aporte em alimentos/nutrientes com propriedades antioxidantes, entre outros.

Os métodos de medição mais comuns incluem a medição da concentração plasmáticos de determinados antioxidantes (vitaminas E, C, coenzima Q (ubiquinol), glutatião, etc.) e a medição do estado oxidativo (p.ex.: determinação plasmática de subprodutos de peroxidação lipídica).

Efeitos dos UV na pele

Na pele, os efeitos negativos do stresse oxidativo, ao nível do envelhecimento cutâneo, são os que estão mais amplamente divulgados. Sobretudo, pela ação perniciosa da radiação solar. As zonas expostas da pele ficam mais suscetíveis a sofrer lesões provocadas pela ação das espécies reativas ao nível das fibras que a constituem (colagénio e elastina) e ao nível da membrana e ADN das células.

Fenómenos inflamatórios, imunosupressão, cancro, máculas, rugas e envelhecimento acelerado são algumas das consequências possíveis do stresse oxidativo provocado pela exposição às radiações UV. Ainda que seja difícil diferenciar entre o que são processos próprios do envelhecimento biológico e processos patológicos que se desenvolvem durante o mesmo, está estimado que mais de 50% dos sinais visíveis do envelhecimento cutâneo poderão ser provocados pelos UV e pelos radicais livres formados devido à exposição a estes.

Auxílio de sistemas antioxidantes

Várias doenças são relacionadas com a ação dos radicais livres, nomeadamente a aterosclerose, a diabetes, as doenças autoimunes, as doenças neurológicas degenerativas (Alzheimer, Parkinson, Huntington, etc.) e o cancro. Assim, torna-se importante contarmos com o auxílio de sistemas antioxidantes extra.

Estes sistemas antioxidantes não enzimáticos são, na sua maioria, exógenos, ou seja, necessitam de ser absorvidos pela alimentação diária, ou sob a forma de suplementos alimentares, que podem ser ricos em enzimas antioxidantes e em antioxidantes não enzimáticos.



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